Não estimulamos direita nem esquerda, diz comandante de colégios militares

A ampliação do número de colégios militares dirigidos pelo Exército no Brasil é uma das principais promessas do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), para melhorar a educação básica brasileira. Mas como funcionam essas unidades? O que têm de particular e único? Qual a sua forma de ensinar?

O UOL entrevistou o General Flávio Marcus Lancia, que comanda a Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial do Exército, órgão que engloba, coordena, orienta e dirige os 13 colégios militares do Exército hoje existentes no Brasil. Um 14º colégio foi criado esse ano, o primeiro de São Paulo (no bairro de Santana, zona norte da capital paulista), mas sua ativação efetiva só ocorrerá a partir de 2020.

A promessa de Bolsonaro é construir, em dois anos, um colégio militar do Exército para cada capital da federação. Há, atualmente, colégios em 11 capitais e, portanto, faltariam outros 16.

Nas contas do Exército, os colégios militares possuem hoje 13 mil alunos em suas 13 unidades, sendo 6,5 mil no ensino fundamental 2 e 6,5 mil no ensino médio. A cada ano, cerca de 2.300 são formados em segundo grau.

O custo total da manutenção dos colégios, por ano, é de cerca de R$ 10 milhões. Um aluno de colégio militar custa três vezes mais do que um aluno de escola pública regular, segundo dados do MEC (Ministério da Educação).

Dos 13 mil alunos, 80% são dependentes de militares (majoritariamente do Exército, mas também da Força Aérea, Marinha, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros) e 20% são civis que obtiveram vaga por concurso. Há pouco mais homens (52%) que mulheres (48%).

De todo aluno cobra-se uma cota mensal escolar que gira em torno de R$ 220 e R$ 230, podendo se aproximar de R$ 300 segundo o número de atividades de que o aluno participa no contraturno da tarde.

Foram oferecidas 505 matrículas para civis em 2019, com cerca de 28 mil interessados, ou 55 candidatos por vaga.

Na entrevista a seguir, Lancia, 54, general de três estrelas (a apenas uma estrela do topo da carreira no Exército), diz que a orientação pedagógica dessas escolas é não fazer doutrinação nem à direita, nem à esquerda, nem ao centro.

“Queremos que o aluno saia preparado para a vida. Não tem isso de dizer: tal coisa foi certa, tal coisa foi errada. O aluno vai ver o fato histórico, analisar e tirar suas próprias conclusões."

UOL - O colégio militar nos moldes do gerido pelo Exército é o ideal de modelo para toda a educação básica brasileira?

General Flávio Marcus Lancia - Os colégios militares são parte do sistema Colégio Militar do Brasil, que é organizado pelo Exército. O sistema é subordinado ao sistema de Educação e Cultura do Exército. Então o sistema está regido pela Lei 9.786, de 1999, que é a lei de ensino do Exército.

O sistema originalmente foi moldado para atender aos militares e seus dependentes, que são sujeitos aos problemas de transferências constantes [de postos]. Muitas vezes servem em locais onde a educação tem mais deficiência.

O Brasil tem vários e excelentes sistemas de educação. O nosso é um modelo que pode ser usado, replicado por outros e servir de inspiração, como também a gente se inspira em outros modelos que encontramos no Brasil e são muito bons.

Como hoje está estruturada a sua rede?

Um colégio militar, antes de ser uma escola de educação básica, é uma organização militar do Exército. Essa é uma diferença importante. É um quartel do Exército. Tanto é que a gente forma reservista. Temos soldados que são incorporados todo ano, que servem também nos colégios militares.

A gente tem armamento, instrução militar para a tropa, os oficiais e sargentos fazem um plano de manutenção dos padrões militares mínimos, tiro, educação física etc. Então é uma organização militar e funciona também como estabelecimento de ensino de educação básica. Começamos no sexto ano e vamos até o nono ano do fundamental 2. E depois o ensino médio, do primeiro ao terceiro ano. São sete anos oferecidos.

Tem sido muito falado hoje de questões de gênero, uma suposta doutrinação nas escolas. Os alunos dos colégios militares discutem política, pensamento crítico e também questões de educação sexual? Fazem parte do currículo?

O projeto pedagógico atual diz que o nosso sistema é baseado nos valores e tradições do Exército, respeito aos valores sociais, patrióticos e familiares e prepara jovens para serem cidadãos cônscios de seus deveres e que não sejam simplesmente repetidores daquilo que se aprendeu na sala de aula.

Pensamento crítico: é o que mais a gente faz, isto é, estimular o nosso aluno a ter uma visão além do que a gente passa ali de conhecimento, porque, senão, seria um robô. Só repetiria o que é ensinado. Muito pelo contrário, nossos alunos pensam fora da caixa.

Questões de gênero: em 1989, os colégios admitiram as meninas, porque até então eram só para os meninos. De imediato elas foram para as mesmas salas de aula, ou seja, não têm sala de aula separada, fazem as mesmas coisas, da educação física até a arte, teatro, esporte e concorrem aos mesmos méritos. Porque temos um critério de meritocracia de promoção no batalhão escolar [agrupamento de alunos de alguns anos], se inspirando no Exército.

Tem lá o coronel-aluno, comandante do batalhão escolar de todos os alunos, tem tenente-aluno, seguindo todo um ordenamento. E as meninas concorrem normalmente nisso, inclusive há várias meninas que são coronel-aluna, comandantes do batalhão escolar, pelos seus méritos. Então essa questão de gênero tratamos muito tranquilamente. Não há nenhum tipo de preconceito contra nada, contra nenhum aspecto.

E com relação à educação sexual, é algo que nosso plano de sequências didáticas marca. Por exemplo, biologia. Vai lá tratar sobre métodos contraceptivos. Isso vai ser tocado em sala de aula sem problema nenhum, dentro dessas características do nosso projeto pedagógico.

Gostaria que o senhor falasse sobre a relação entre criatividade, hierarquia e disciplina, se são conflitantes ou não.

Vou dar o exemplo do caso de um aluno com deficiência mental e sensorial. Por incrível que pareça, o fato de ele entrar em forma, usar farda, fazer continência, levantar na sala de aula quando o professor chega (que é o básico, pois a gente não ensina nada militar, não tem instrução para o combate no colégio militar), esse aluno melhorou sensivelmente a qualidade de vida dele. O sistema ajudou o aluno.

Sempre digo para nossos alunos e professores: o nosso projeto pedagógico começa na formatura, em entrar em forma, na ordem unida, na apresentação individual do aluno, corte de cabelo para os meninos, cabelo preso para as meninas, que é o padrão nosso, que é o básico que a gente dá em termos de hierarquia e disciplina. Mas não tolhe em nada, nossos alunos são fantásticos na parte de artes. O regime militar compatível, previsto na lei, só facilita.

Quais são os pontos mais fortes da educação de vocês?

Chamamos de fortalezas e elas são as seguintes. Um projeto pedagógico bem claro, disponível para todo mundo. Um plano de sequências didáticas bem amarrado, a cada três anos nós revisamos todas as nossas disciplinas, o nosso currículo. E nossos professores e agentes de ensino, pedagogos, orientadores educacionais, psicólogos. A maioria dos nossos professores tem especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado. A gente dá apoio aos professores, promove capacitação, formação continuada. O professor tem uma ideia, "Olha, quero trabalhar um projeto", a gente tenta arrumar os recursos. E tem também a infraestrutura dos nossos colégios, em que a gente investe pesado, mas ainda tem muita coisa para ser feita. Muitos ainda precisam de reformas, de novos equipamentos, adequação das instalações sobretudo para atender alunos com deficiência.

E ainda a relação nossa bastante aberta e franca com os próprios alunos e pais. Periodicamente, tem reunião com os pais, os alunos também se reúnem com a direção de ensino para externar vontades e coisas que precisam ser feitas, o que acham que está bom, o que pode ser melhorado. Também cito a atividade pesada na parte da tarde, no contraturno. Alguns anos escolares têm turno integral, temos atividades extraclasses, eletivas, grêmios da infantaria e da cavalaria; grêmios da Força Aérea, da Marinha; clubes de informática, de robótica, de matemática, de ciência. Se você somar tudo isso, é o meu segredo.

“O que mais os alunos levam do colégio militar são os valores, o respeito que aprenderam, a questão de tratar bem, ter caráter e ética”.

Novas pedagogias colocam hoje o professor mais como um mediador, um estimulador de caminhos. Como é hoje a relação entre professor e aluno em sala de aula dos seus colégios?

O professor continua sendo uma figura altamente importante na sala de aula, porque é o facilitador, mas o mundo moderno exige mudanças em nossas metodologias de ensinar e aprender. A gente usa ferramentas de TI [tecnologia da informação], como ambiente virtual de aprendizagem, para complementar o que é visto em sala de aula. Procuramos estimular os professores a adotarem estratégias diferentes. Muita interdisciplinaridade e contextualização, que é o cerne do ensino por competências que o Exército adotou em todas as escolas, inclusive nos colégios militares.

Estimulamos o professor a sair da sala de aula por vezes: "Vai dar uma aula de matemática lá na garagem e pega um caminhão do colégio militar para fazer medição etc.". E aproveitamos, principalmente nas avaliações, as questões contextualizadas, para que o aluno possa se inserir no problema. Mudar a estrutura de uma sala de aula não é fácil, mas a gente vem tendo muito sucesso.

uso de telefones celulares com finalidade pedagógica é incentivado?

A gente estimula. Claro que há um controle por professores, instrutores e monitores, para que o aluno não perca a atenção, o foco na aula, e fique só mandando mensagem pelo WhatsApp. Estamos, inclusive, implantando redes wi-fi em todos os colégios, dentro do possível. Estamos avançando, isso exige investimento, tem muita coisa que ainda não está pronta. Mas isso é justamente para estimular o aluno a estar conectado 24 horas. O ambiente virtual de aprendizagem é uma extensão da sala de aula. 

Brinco muito com nossos professores: "Nosso aluno é digital. Chega com celular, tablet, todo conectado e não pode entrar numa sala de aula analógica". Ou seja, senta todo mundo, o professor só fala, o aluno só repete. Não é essa a nossa proposta. Estamos buscando novas alternativas.

“Nosso objetivo é formar o cidadão para a vida e o país. Não temos foco em parte militar, em segurança pública”.

Como é dada a aula sobre o regime iniciado em 1964?

A história, a geografia, a filosofia e a sociologia, disciplinas que entram muito nessa área, são dadas baseadas nos fatos históricos. A nós não interessa estimular nem um lado, nem o outro. Nem direita, nem esquerda e nem centro. Queremos que o aluno saia preparado para a vida. Não tem isso de dizer: tal coisa foi certa, tal coisa foi errada. O aluno vai ver o fato histórico, analisar e tirar suas próprias conclusões. Até porque nosso aluno faz Enem, Fuvest, vestibular. Ele tem que ter uma visão ampla disso, então não há nenhum preconceito.

Agora, obviamente, seguimos os valores e tradições do Exército brasileiro. Vamos estar sempre baseados nesses aspectos nas nossas aulas, e cada professor aborda lá o tema dentro das suas próprias convicções, mas seguindo o nosso plano de sequências didáticas. Como vou lá abordar o período da Revolução de 64, do regime militar etc.? [Militantes de esquerda e parte da academia tratam a deposição do presidente João Goulart como golpe de Estado liderado pelos militares, em 1964.] Vai ser abordado conforme previsto no plano de sequências didáticas.

Aí, a parte específica, que houve um período em que houve uma revolução democrática etc., conduzida. E vai seguir dentro desse padrão sem nenhuma paixão. Sem dizer: "Nós estamos certos, ele está errado, o outro estava mais ou menos". Não existe isso de fazer apologia a um lado ou outro. Seguimos exatamente o que o fato histórico diz. E seguimos os nossos livros didáticos, e são muitos do PNLD [Plano Nacional do Livro e do Material Didático, do Ministério da Educação].

Com relação a 1964, os senhores apresentam que foi golpe e revolução ao mesmo tempo?

Contamos o fato histórico. Que houve uma revolução em 64 e todos os governos que foram conduzidos [a seguir]. Qual foi o presidente no primeiro governo, no segundo etc. e segue. Normal, o fato histórico. Sem nenhuma conotação de um lado ou de outro. Não há nenhum tipo de doutrinação, de nenhum lado, de nenhum aspecto. A parte política é do comandante do Exército.

Nós contamos o fato histórico: "Aconteceu isso em março de 64, seguiram-se os governos militares e cada governo fez tais realizações, ao final houve uma eleição no Congresso, foi eleito o presidente Tancredo [Neves], assumiu Sarney [José Sarney, com a morte de Tancredo antes da posse]." E aí segue a sequência didática disso daí.

“Sem nenhuma paixão, sem nenhuma apologia, sem nenhuma tentativa de doutrinar quem quer que seja para qualquer lado. Sem nenhum tipo de ideologia e sem nenhum trabalho político. Sem querer que o aluno siga o meu pensamento. Isso não existe num colégio militar. Contra o fato não há argumento. Tem até um provérbio: "Seek truth from facts" [tire a verdade dos fatos, em tradução livre].

Alunos em geral têm filmado e sido estimulados a filmar seus professores por supostamente estarem doutrinando em sala de aula. Filmar o professor não é uma quebra de disciplina e de hierarquia?

Diariamente, diuturnamente, eu, minha equipe, os meus 13 comandantes dos colégios militares, que são diretores de ensino, estamos suando a camisa para dar o melhor tipo de educação para nossos alunos. Sinceramente, isso não é uma preocupação presente. Os nossos professores são muito bem tratados, são estimulados. Nossos alunos são bem tratados. Sinceramente, esses tipos de problemas que a gente vê às vezes no noticiário, nós não temos no sistema Colégio Militar.

Isso de filmar o professor não seria incentivado num colégio militar?

Nossa relação, dos membros do corpo permanente dos colégios com os alunos e com os pais, é tão boa, que esse é um assunto que nem entra na pauta. Nossos pais adoram. Estive agora na formatura do colégio em Juiz de Fora (MG), no terceiro ano. Do nada, uma mãe veio ali humildemente, chamou o comandante, o coronel estava do meu lado: "Coronel, queria agradecer ao senhor, minha filha está concluindo aqui, fantástico esse colégio, a gente vai sentir saudade". Quer elogio maior que esse?

O nosso objetivo é um trabalho harmônico. É um trinômio: escola, aluno e família. Esses três atores têm que estar trabalhando bem, harmoniosamente. O sistema é fantástico. Só você entrar aí nas mídias sociais dos colégios, ver os comentários que fazem, você fica emocionado.

 

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