Por Ana Paula Lisboa

O que vem à sua mente quando você ouve a palavra "saúde"? Com frequência, o aspecto corporal é priorizado em detrimento dos fatores psicológico e emocional. Autor da célebre frase "mente sã, corpo são", o poeta romano Décimo Júnio Juvenal viveu no primeiro século depois de Cristo e, naquela época, sabia da importância de cuidar tanto da psique quanto da carne. Mais de 1.800 anos depois, porém, o bem-estar da alma ainda não é levado tão a sério quanto o físico.

Apesar de ser um assunto muito importante, a saúde mental não recebe a devida atenção e ainda é permeada por tabus, preconceito e desconhecimento; entraves para que pessoas que passam por problemas nesse campo consigam falar sobre a questão. E, nessa área, quando alguém sente que não pode contar ou conversar com ninguém, a situação chega a ponto crítico. A consequência extrema, o suicídio, ainda é pouco debatida nos mais diversos espaços de educação e na mídia. 

O silêncio sobre o assunto resvala no temor de que disseminar informações sobre isso possa estimular mais mortes. É um risco real quando o problema não é abordado de maneira adequada. Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) acredita que o jornalismo tem um papel fundamental na prevenção do autoextermínio, desde que com cautela e responsabilidade. "O relato de suicídios de uma maneira apropriada, acurada e cuidadosa, por meios de comunicação esclarecida, pode prevenir perdas trágicas de vidas", afirma o manual para profissionais da mídia da entidade, disponível no link. O problema - que afeta pessoas de todas as classes sociais, idades, religiões e gêneros - é muito grave para que a imprensa e a sociedade se calem sobre eles. Falar sobre isso, de forma responsável, sem alarmismo e enfrentando os estigmas relacionados ao assunto, é um fator de prevenção. 

Nos últimos anos no Distrito Federal, os casos de suicídio passaram de 100 por ano, e os de tentativa ultrapassam 100 por mês. Até maio de 2018, 804 pessoas tentaram se matar, das quais 41 morreram. Em 2017, foram 1.916 tentativas e 167 óbitos. Em 2016, o número de mortes foi de 151. Os dados são da Secretaria de Estado de Saúde (SES/DF) e do Corpo de Bombeiros Militar (CBMDF). No Brasil, em média, 11 mil pessoas tiram a própria vida por ano, segundo o Ministério da Saúde. Entre 2011 e 2015, foram 55.649 casos, mais de cinco a cada 100 mil habitantes anualmente. Idosos acima dos 70 anos, pessoas com até três anos de estudo e a população indígena são os três maiores grupos que chegam a óbito. Mundialmente, são 800 mil mortes por ano, de acordo com a OMS. Para cada pessoa que morre dessa maneira, outras 20 atentam contra a própria vida. 

Muitos dos casos estão associados a algum tipo de transtorno psiquiátrico; o restante envolve problemas psicológicos. Ambas as situações, tratáveis, quando se procura ajuda. A depressão, que atinge mais de 300 milhões de pessoas globalmente, é apontada pela OMS como uma das principais causas da autodestruição. Outros fatores de risco são a dificuldade de lidar com estresses agudos ou crônicos e a violência baseada em gênero, o abuso infantil e a discriminação.

No mundo, o suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos - uma população amplamente frequentadora de escolas, cursinhos e faculdades. Essas instituições, em parceria com as famílias, podem conseguir resultados muito positivos, criando ambientes amigáveis, ao instigar relações que não sejam puramente acadêmicas, mas baseadas em pessoalidade, respeito e preocupação.

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